As árvores sempre foram mais do que organismos biológicos. Elas são presenças. São portadoras de memória, testemunhas silenciosas do tempo e mediadoras entre o céu e a terra. Em muitas culturas e tradições religiosas, inclusive na cristã, as árvores ocupam um lugar simbólico profundo, representando vida, justiça, sabedoria e enraizamento.
Desde as primeiras páginas do livro de Gênesis, as árvores aparecem como figuras centrais. No jardim do Éden, são elas que delimitam o espaço da liberdade e do limite: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:9). No último livro, Apocalipse, novamente encontramos a árvore da vida, agora plantada no centro da cidade celestial, cujas folhas servem para a cura das nações (Apocalipse 22:2). O imaginário bíblico, portanto, começa e termina sob a sombra de árvores.
Pensar ecologicamente as árvores é, nesse sentido, pensar teologicamente a existência. Não há espiritualidade enraizada que ignore as raízes do mundo. Árvores não são apenas parte da paisagem: são estruturas da convivência. Produzem oxigênio, sustentam microclimas, protegem os solos, alimentam animais e abrigam vida. Mais do que isso, sustentam uma pedagogia da lentidão, da permanência, da espera paciente — elementos fundamentais para uma espiritualidade que se quer profunda.
A ecologia da existência passa por uma conversão do olhar. Em vez de se ver uma árvore como recurso, é preciso percebê-la como relação. Árvores não existem para o uso exclusivo do humano; elas são parte de um tecido de interdependência do qual a humanidade também depende. Cortar uma árvore sem necessidade, portanto, não é apenas uma perda ambiental: é uma ruptura existencial, um tipo de amputação simbólica da própria condição de habitar o mundo.
A tradição profética hebraica e cristã também associa árvores à justiça. No livro dos Salmos, o justo é comparado a uma árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá fruto no tempo certo e cujas folhas não murcham (Salmo 1:3). A justiça, nesse modelo, não é apenas uma ideia ética, mas um modo de estar enraizado no mundo, fecundo, coerente e firme.
A devastação de florestas, portanto, não diz respeito apenas à perda da biodiversidade, mas à erosão de um modo de existência em harmonia com o tempo, o espaço e o outro. A ecologia das árvores é também a ecologia da alma. E o desaparecimento das árvores pode significar também o desmoronamento de um certo tipo de humanidade.
Em tempos de crise climática, a restauração do verde não é apenas uma pauta ambiental, mas uma urgência espiritual. Reflorestar é também rezar com as mãos. Plantar árvores é um ato litúrgico silencioso que responde à destruição com esperança e à pressa com permanência.
A árvore, com sua linguagem sem palavras, ensina a viver com profundidade, a suportar os ventos sem deixar de crescer, e a frutificar para além de si. Em sua silenciosa estatura, ela afirma: viver não é correr — é permanecer.