O mundo contemporâneo experimenta um colapso simbólico dos elementos. A água tornou-se escassa, o ar tornou-se irrespirável, o fogo tornou-se devastação e a terra, esgotamento. O que antes era equilíbrio dinâmico agora tornou-se ameaça latente. E diante disso, não são apenas as estruturas ecológicas que colapsam — a esperança também adoece.
A tradição cristã sempre reconheceu os elementos como portadores de sentido. São parte da criação e também da revelação. A terra, no Gênesis, é modelada pelas mãos do Criador; a água, nas narrativas do Êxodo e do batismo, simboliza passagem e renovação; o fogo, no Pentecostes, manifesta presença divina; e o ar — o sopro — é o próprio Espírito (ruach) que anima e sustenta toda vida (Gênesis 2:7).
Entretanto, em um tempo de crise planetária, os elementos parecem ter perdido seu brilho simbólico e se transformado em objetos de medo. O que fazer quando os sinais da vida se tornam sinais da morte? Quando os quatro pilares do mundo natural se desequilibram, como sustentar uma espiritualidade encarnada?
A escatologia ecológica propõe uma resposta: é necessário recuperar a esperança cósmica, aquela que crê não apenas na salvação individual, mas na redenção da criação como um todo. Essa esperança não ignora o sofrimento da Terra — pelo contrário, parte dele como clamor escatológico. A própria Escritura afirma: “Toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Carta aos Romanos 8:22). Os gemidos da Terra não são lamento final, mas prenúncio de parto.
Essa visão não espiritualiza a destruição. Não há redenção sem reconciliação. E reconciliar-se com os elementos exige rever práticas, reeducar o desejo e repensar o modo como se habita o mundo. Esperança cósmica não é utopia ociosa, mas movimento ético e litúrgico que envolve a conversão do olhar e do gesto.
A teologia da criação, nesse sentido, chama o ser humano à corresponsabilidade cósmica. Os elementos não foram dados para uso arbitrário, mas confiados como dons a serem cuidados. O apocalipse bíblico não é um projeto de aniquilação, mas de revelação: a desordem do mundo expõe o descompasso entre a criação e o coração humano. O fim dos elementos, se vier, será consequência do esvaziamento da consciência.
Mas a esperança permanece. Porque ela não se ancora em previsões, mas em promessas. Promessa de restauração, de céu e terra renovados (Apocalipse 21:1), onde os elementos não serão destruídos, mas reconciliados. Uma esperança cósmica é, portanto, uma espiritualidade planetária: não se espera um mundo novo sem aprender a cuidar do mundo que já é.
A crise é real, mas não é definitiva. Ela pode ser o limiar de um novo ciclo espiritual. Quando a água volta a ser fonte, o fogo volta a ser presença, o ar volta a ser sopro e a terra volta a ser ventre — então, mesmo em meio ao caos, ressurge a possibilidade do reencontro. Com o mundo. Com o Criador. E consigo mesmo.